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quinta-feira, 27 de maio de 2010

Mais uma história

Imagem retirada do Tumblr

Parece apenas uma rua qualquer, mas se essas paredes pudessem falar certamente contariam as mais lindas histórias sobre romances ardentes, reencontros emocionantes, e demais coisas lindas que você adoraria escutar. Mas a história mais sombria - e talvez a mais interessante - continua escondida entre as frestas das antigas venezianas, entre os tijolos das velhas casas e na mancha escura no fim da rua.

E é essa história que hoje vou contar.

Foi há muito tempo atrás, na época em que os lampiões de querozene ainda eram os responsáveis pela iluminação dessa humilde ruazinha. As coisas não podiam ser mais pacatas nessa cidade, porém a paz foi interrompida pela chegada de um estranho, o mais lindo estranho que já conheci.
O cabelo dele era de um castanho reluzente, a pele tão alva lembrava a neve - quase tão enregelante quanto ela - e os seus olhos, escuros como a noite, escondiam uma agonia amedrontadora. O simples pronunciar do seu nome gerava suspiros e arrepios.
Ele conquistou boa parte da pequena população com seu jeito cortês e educado de ser, apesar de ser visto apenas à noite andando pela cidade. Conquistou também o coração de uma jovem, como você já devia imaginar.
Eles se encontraram poucas vezes, mas esses poucos encontros já bastaram para que algo acontecesse entre os dois, ou melhor, para que ela se apaixonasse por ele. Ele lhe dirigia as mais lindas declarações, poemas de grandes autores, frases que ele mesmo criava, e ela aos poucos foi entregando seu coração. Ele a hipnotizava e fazia sentir coisas que nunca antes sentira, e ela estava feliz como há muito tempo não era.

Porém o restante da cidade não compartilhava da mesma alegria.

Em uma ruazinha escura - essa mesma que já lhe foi apresentada - pessoas morriam silenciosamente e eram encontradas dias depois com marcas entranhas no pescoço, e sem qualquer resquício de sangue em seus corpos. Começavam a surgir boatos de um vampiro, um demônio, e demais histórias fantasiosas. Ou nem tão fantasiosas assim.

Era a última noite dele na cidade, ela estava no mesmo banco o esperando. Ele havia prometido uma surpresa, e ela já sonhava com um anel. Ele chegou, beijou docemente a mão dela e começou a conduzi-la pela cidade. Ela confusa apenas deixou-se levar.
Qual não foi sua surpresa ao se deparar com a ruazinha tão conhecida - e tão assustadora - e se dar conta que esse era o seu destino.
- Você não está entendo não é? Mas logo irá compreeender.
Havia um tom de ironia naquelas palavras. Ela tentou se desvencilhar das mãos dele, mas não havia como. Ele era mais forte, e apesar de seus instintos gritarem para que ela lutasse, algo nele ainda a acalmava.
Ele a levou até o fim da rua, enlaçou-a pela cintura e deu-lhe um beijo. Ela sorriu, sentia o corpo relaxar, afinal, a finalidade da rua escura era apenas um beijo roubado.
Ele sorriu também, mordendo o pescoço dela.
Então ela compreendeu, sentiu que sua vida acabaria ali, nas mãos do homem desconhecido que ela tanto amou.

De repente ele parou, ajoelhou-se segurando-a em seu colo. A visão era aterradora, ele com os lábio sujos de sangue e ela com o vestido tingido de vermelho imóvel em seus braços.

Mas ela ainda não estava morta, ele não havia conseguido terminar. Foi quando os olhos fixaram-se um no outro e ela pode ver toda aquela agonia, todo o medo que ele também escondia.
- Não posso. Não tenho forças suficientes para isso. - ele susurrou.
E ela viu o rosto dele se contorcer de dor, de repulsa pelo que ele era. Queria poder dizer a ele para continuar, expulsar aquela dor que agora percorria o seu corpo, e por mais que não quizesse adimitir, queria dizer que o amava, e que o perdoava.
Ela foi deixada lá, sangrando e esperando que a morte viesse buscá-la logo. Mas ela não veio. O sol começou a aparecer e queimar de leve sua pele, as forças voltaram a surgir e ela conseguiu se levantar. Correu para se esconder, assustada e sentindo-se estranhamente renovada e com sede de algo que nunca havia provado antes.
Horas depois, de um canto da rua, pôde ver seu pai ajoelhado próximo à poça de sangue, sua mãe chorando compulsivamente, mas não conseguiu sentir nada. Não havia mais um coração pulsando dentro dela.


E essa caros amigos, é a minha história.
A poça de sangue ainda está lá, marcada nas pedras da calçada. Eterna. Assim como eu.
post para o Palavras Mil

2 comentários:

Irene Moreira disse...

UAU !!! menina que história de dar medo.
Tremenda apresentação.
Beijos

Chica disse...

Arrepiante e linda!beijos,chica